Duas propostas de empréstimo chegam ao seu celular. A primeira anuncia juros de 3,5% ao mês; a segunda, 3,9%. A escolha parece óbvia, mas pode estar errada. Isso acontece porque a taxa de juros mostra apenas uma parte do preço do dinheiro. Tarifas, impostos e seguros entram na conta e, somados, podem inverter a comparação.
É para resolver esse problema que existe o Custo Efetivo Total, o CET. Entender esse indicador é provavelmente a habilidade mais útil para quem vai contratar qualquer tipo de crédito, do financiamento de um carro a um parcelamento de fatura.
CET em uma frase
O CET é a taxa que representa o custo completo de uma operação de crédito, expressa em percentual ao mês e ao ano. Ele reúne tudo o que você paga além do valor que recebeu: juros, tributos, tarifas, seguros e outras despesas cobradas na contratação. Em outras palavras, responde à pergunta “quanto, de verdade, este dinheiro está me custando?”.
As instituições financeiras são obrigadas, por regulamentação do Banco Central, a informar o CET ao cliente antes da contratação, tanto em operações com pessoas físicas quanto com micro e pequenas empresas. Essa informação deve constar da proposta e do contrato, junto com a planilha que mostra como o número foi calculado.
O que entra no cálculo do CET
Os componentes podem variar conforme a modalidade, mas os mais comuns são:
- Juros remuneratórios: o “aluguel” do dinheiro, normalmente o maior item.
- IOF: o Imposto sobre Operações Financeiras, cobrado pelo governo sobre operações de crédito.
- Tarifas: como tarifa de cadastro, quando permitida e efetivamente cobrada.
- Seguros: por exemplo, o seguro prestamista, quando incluído na operação.
- Registros e avaliações: em créditos com garantia, custos de registro de contrato ou avaliação do bem.
Como alguns desses custos são cobrados logo no início — e muitas vezes financiados junto com o valor principal —, eles pesam proporcionalmente mais em empréstimos pequenos e de prazo curto. É por isso que uma tarifa aparentemente modesta pode elevar bastante o CET de uma operação de valor baixo.
Por que comparar pela taxa de juros engana
A taxa de juros nominal não captura os custos fixos da operação. Uma instituição pode anunciar juros mais baixos e compensar com seguro embutido ou tarifa elevada. Outra pode ter juros um pouco maiores, mas nenhum custo adicional. Olhando só para os juros, você escolheria a primeira; olhando para o CET, talvez a segunda.
Um exemplo ilustrativo
Considere duas propostas hipotéticas para um empréstimo de R$ 3.000 em 12 parcelas:
| Item | Proposta A | Proposta B |
|---|---|---|
| Juros ao mês | 3,5% | 3,9% |
| Seguro embutido | R$ 240 | Nenhum |
| Tarifa de cadastro | R$ 150 | Nenhuma |
| Valor financiado | R$ 3.390 | R$ 3.000 |
| Parcela aproximada | R$ 351 | R$ 318 |
Mesmo com juros menores, a Proposta A gera uma parcela mais alta, porque o seguro e a tarifa foram somados ao valor financiado e também passaram a render juros. O CET dela ficaria acima do da Proposta B, ainda que o anúncio sugerisse o contrário. Os valores são fictícios e servem apenas para mostrar o mecanismo; na vida real, peça a planilha do CET de cada oferta.
Como encontrar e ler o CET
Você não precisa calcular o CET sozinho. A instituição tem a obrigação de apresentá-lo. O que você precisa é saber onde procurar e como usar o número.
- Peça a simulação completa: antes de aceitar, solicite a proposta com o CET mensal e anual. Em aplicativos, ele costuma aparecer em “detalhes” ou “resumo da operação”.
- Use o CET anual para comparar: ele facilita a comparação entre prazos e modalidades diferentes.
- Confira os componentes: a planilha deve mostrar quanto de cada item compõe o custo. Se houver seguro, pergunte se é opcional.
- Compare na mesma base: mesmo valor, mesmo prazo e mesma data de contratação aproximada, para que a comparação seja justa.
- Guarde o documento: salve a proposta e o contrato. Se algo cobrado divergir do informado, você tem como reclamar.
Uma dica prática: monte uma pequena tabela com as colunas instituição, valor líquido recebido, número de parcelas, valor da parcela, total a pagar e CET anual. Ao colocar as propostas lado a lado, a melhor opção costuma ficar evidente em poucos minutos.
Caso a instituição se recuse a informar o CET, isso já é um sinal de alerta. Você pode registrar reclamação no próprio canal de atendimento, na ouvidoria, no Procon da sua cidade ou no Banco Central.
CET em diferentes tipos de crédito
Empréstimo pessoal e consignado
Nessas modalidades, o CET ajuda principalmente a revelar seguros e tarifas. No consignado, as taxas tendem a ser menores, mas ainda assim vale comparar o CET entre instituições. Se você está avaliando um empréstimo pessoal, o CET é o primeiro número a pedir.
Financiamentos
Em financiamento de veículo ou imóvel, custos como avaliação, registro e seguros obrigatórios da modalidade entram no cálculo, e o prazo longo amplia o efeito de qualquer diferença de taxa.
Cartão de crédito
As faturas também informam o CET do rotativo e do parcelamento da fatura. Quem já precisou recorrer a essas opções sabe como os percentuais podem ser altos. Vale a leitura sobre o rotativo do cartão e como sair dele.
Portabilidade
Na hora de levar uma dívida para outra instituição, a comparação deve ser entre o CET da operação atual e o CET da nova proposta. Só faz sentido trocar se o custo total cair de forma relevante.
Erros comuns ao avaliar o custo do crédito
- Olhar só a parcela: uma parcela pequena pode esconder um prazo longo e um custo total alto.
- Comparar taxa mensal com anual: parece óbvio, mas acontece. Garanta que os números estão na mesma unidade.
- Somar juros mensais de forma simples: 3% ao mês não equivale a 36% ao ano, porque os juros são compostos. O equivalente anual é maior.
- Aceitar seguros sem perguntar: eles elevam o CET e, muitas vezes, são opcionais.
- Ignorar o valor líquido: confira quanto efetivamente cai na conta, e não apenas o valor contratado.
Perguntas frequentes
O CET pode mudar depois que eu assino o contrato?
Em operações com taxa prefixada, o CET informado no contrato vale para toda a operação, desde que você pague em dia. Atrasos geram multa e juros de mora, que não fazem parte do CET original. Em contratos pós-fixados, atrelados a algum índice, o custo pode variar conforme o índice.
Qual é um CET “bom”?
Não existe um número universal. Depende da modalidade, do prazo, da garantia e do momento da economia. A melhor referência é comparar várias propostas para o seu perfil e consultar as taxas médias divulgadas pelo Banco Central para a mesma modalidade.
Posso negociar o CET?
Você pode negociar os componentes: pedir redução de juros, recusar seguros opcionais e questionar tarifas. Ter propostas concorrentes em mãos costuma ajudar na conversa.
Conclusão
A taxa de juros é a vitrine; o CET é a etiqueta com o preço final. Sempre que for contratar crédito, peça o CET anual de cada proposta, verifique o que está incluído e compare as ofertas nas mesmas condições de valor e prazo. Esse hábito simples evita surpresas, protege o orçamento e coloca você em posição de negociar melhor.
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação financeira individual. Consulte as condições da sua operação diretamente com a instituição e as informações oficiais do Banco Central.


